Um estudo
exclusivo compara os principais indicadores do mercado imobiliário brasileiro
com os de países que passaram por bolhas. A conclusão: estamos numa situação
mais confortável — pelo menos por ora. Mas os preços seguem em alta, um sinal
de alerta.
Vista da Avenida Paulista, em São
Paulo: os preços estão subindo menos
São Paulo - Uma das características das
bolhas especulativas é que só é possível ter certeza de que elas ocorreram num
momento: quando estouram. Enquanto elas estão se formando, é típico do ser
humano encontrar as mais originais justificativas para a euforia. Na década de
90, o oba-oba em torno das recém-nascidas companhias de tecnologia era
justificado por uma tal “nova economia digital”.
O que se dizia então era que a internet seria capaz
de produzir milagres, como aproximar as pessoas e tornar o mundo mais pacífico.
Naquela onda, não foi difícil convencer investidores a colocar fortunas em
empresas mal saídas da garagem. Um punhado delas — como Google e Facebook — de
fato aconteceu, mas milhares viraram pó.
E os investidores perderam bilhões de dólares
quando a bolsa estourou, em 2000. Isso não impediu que o mundo voltasse
rapidamente a acreditar em novos milagres. Pouco depois da bolha da internet,
os americanos e os europeus embarcaram numa outra bolha, a imobiliária — que
foi a origem da grave crise de 2008.
Há quem veja semelhanças entre o que ocorreu nos
países desenvolvidos e o que está acontecendo no Brasil hoje. Como lá fora, os
preços dos imóveis brasileiros, em quase todo lugar, estão subindo
mais do que a renda, a inflação e qualquer outro indicador do mercado
financeiro.
É bolha? Ou a alta é explicada por um conjunto de
fatores positivos, como salários em alta, desemprego baixo e disponibilidade de
crédito, depois de mais de uma década de dinheiro contado? Um estudo exclusivo
da consultoria Bain&Company dá bons argumentos para quem não vê nada de
anormal no mercado imobiliário brasileiro.
A pesquisa mapeou as principais características que
marcaram a expansão do mercado imobiliário nos Estados Unidos, no Canadá e em
cinco países europeus. O objetivo era identificar o que deu errado nos lugares
em que houve uma bolha e como se comportaram os mercados “saudáveis” — e então
mostrar qual dos cenários está mais próximo da realidade brasileira.
Foram analisados seis indicadores, como
endividamento médio da população, acesso a financiamento e evolução dos preços.
“Não adianta olhar a inadimplência, que só aumenta quando já existe um
problema. Fomos atrás de números que mostram os problemas quando eles ainda
estão se formando”, diz Rodolfo Spielmann, sócio da Bain e coordenador do
estudo.
Ao analisar os indicadores em
conjunto, a conclusão da consultoria é que não há bolha aqui. Mas há números
vistos como “preocupantes” — que podem complicar a situação do mercado nos
próximos anos.
Do
lado positivo, a Bain destaca as condições do crédito imobiliário no Brasil. O
volume de financiamentos cresceu de forma acelerada nos últimos oito anos:
passou de 3 bilhões de dólares, em 2004, para quase 83 bilhões, em 2012. Ainda
assim, representa apenas 6% do produto interno bruto, um dos menores
percentuais do mundo
Nos países que passaram por bolhas imobiliárias e
fazem parte do estudo da Bain — Espanha, Estados Unidos, Irlanda, Portugal e
Reino Unido —, a proporção média é de 76%. Além disso, os bancos brasileiros
continuam rigorosos ao emprestar.
Exigem, em geral, uma entrada de quase 40% do valor
do imóvel — lá fora, era comum que o cliente levasse 100% e um troco para
reformar e decorar a nova casa — e oferecem prazos de pagamento do crédito
inferiores a 30 anos (na Espanha, o prazo máximo chegou a 50 anos).
O aspecto mais preocupante da pesquisa é justamente
o que mais chama a atenção de quem está tentando comprar ou vender um imóvel: o
aumento expressivo dos preços. Dados do Banco Central mostram que a alta média
de 2003 para cá foi 108% superior ao aumento da renda da população.
Em nenhum dos países do levantamento da Bain houve
uma valorização tão grande — os maiores percentuais foram os da Espanha e da
Portugal, que ficaram abaixo de 80%. “Se analisado de forma isolada, esse
número, realmente, é alarmante. Mas é preciso olhá-lo junto com outros
indicadores e levar em conta o passado do Brasil”, diz Spielmann.
Entre o fim dos anos 80 e o começo dos anos 2000, o
mercado imobiliário ficou praticamente parado no Brasil. A disponibilidade de
crédito era baixíssima. Sem dinheiro, as incorporadoras construíam pouco, e
quem queria comprar uma casa era obrigado a pagar quase tudo à vista, o que
tornava a compra inviável para muita gente. Como a demanda era pequena,
os preços subiam pouco.
A partir de 2004, a melhoria do arcabouço jurídico
do crédito imobiliário levou os bancos a voltar a emprestar. Além disso, a
queda dos juros barateou os financiamentos, o que inclui mais pessoas no time
de potenciais compradores.
“A alta de preços nesse período foi, na verdade,
uma correção”, diz Luiz Antonio França, diretor do banco Itaú. Numa comparação
internacional, os imóveis aqui ainda não estão caros. O valor médio de um
imóvel no Brasil corresponde a 5,1 vezes a renda anual média, metade do número
dos países analisados no estudo da Bain.
O problema é o que acontecerá se os preços continuarem subindo. Outro levantamento, feito anualmente pela
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas em parceria com EXAME, mostra que a
valorização dos imóveis continua, mas em ritmo menor do que no passado. De 2008
a 2011, os preços aumentaram à média anual de 20% a 30%.
Em 2012, a alta ficou
abaixo de 15% — e, em algumas cidades, houve queda de preço. Mas vai continuar
assim? Qual é a chance de os valores caírem em mais lugares? É possível que os
imóveis voltem a valorizar como no passado? A Bain fez uma série de projeções
para o mercado até 2017. O cenário mais provável é que os preços passem a subir
menos do que a renda.
“Demanda existe, mas,
como os valores já aumentaram muito, o consumidor não tem mais tanto fôlego
como no passado. Por isso, está mais cauteloso”, diz Sérgio Freire, presidente
da corretora Brasil Brokers.
Além disso, os
brasileiros estão muito mais endividados do que há cinco anos, o que reduz o
espaço para novos financiamentos — em média, 22% da renda das famílias está
comprometida com o pagamento de algum empréstimo, um patamar próximo ao dos
países problemáticos que foram estudados.
E se tudo der errado?
Uma bolha se forma quando há financiamento acessível — é isso que permite que
mais pessoas tenham condições de comprar, o que eleva os preços. Nos Estados
Unidos, a euforia começou quando o Federal Reserve, banco central do país,
cortou os juros para estimular a economia, e os bancos passaram a emprestar com
taxas reduzidas.
Como a rentabilidade
da renda fixa era baixa, os americanos usavam esse crédito barato para aplicar
em imóveis. Contratavam o financiamento por 30 anos, para que as prestações não
fossem altas, na esperança de revender a casa ou o apartamento com lucro meses
depois. Em tese, nada de errado.
Aliás, o esquema deu
certo por anos. Muitos investidores ganharam dinheiro e os bancos foram
emprestando cada vez mais, só que para pessoas com menos condições financeiras
para comprar. Em 2007, a inadimplência começou a subir e as fragilidades do
modelo vieram à tona — nos Estados Unidos e também na Europa, que viveu um
fenômeno semelhante.
Instituições financeiras tiveram de ser socorridas pelos governos até
que, em setembro de 2008, o banco Lehman Brothers quebrou e detonou a fase mais
aguda da crise internacional. O Brasil, evidentemente, está longe de passar por
isso. Os juros por aqui são muito maiores do que lá fora. E não há sinais de
que os bancos estejam dispostos a sair emprestando sem critério. Mais
argumentos para a turma do “está tudo bem”.

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