Apesar do alerta do Prêmio Nobel, o governo Dilma está impulsionando a
demanda para ajudar as pessoas a comprarem mais casas enquanto os preços sobem.
Dilma e o projeto
Minha Casa, Minha Vida: o programa de construção de casas de Dilma impulsionou
a demanda com o objetivo de estimular a economia antes das eleições
Rio de Janeiro e São
Paulo - A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, está ignorando as advertências
sobre uma bolha imobiliária e impulsionando
a demanda para ajudar as pessoas a comprarem mais casas enquanto os preços
sobem.
O governo aumentou o
limite de preços que as pessoas podem pagar por propriedades com o fundo de
garantia por desemprego em 30 de setembro, depois que os empréstimos
imobiliários dos bancos públicos mais do que quadruplicaram os dos bancos
privados nos dois anos finalizados em junho, totalizando R$ 202 bilhões (US$ 90
bilhões), segundo dados do Banco Central.
O programa de
construção de casas de Dilma impulsionou a demanda com o objetivo de estimular
a economia antes das eleições presidenciais do ano que vem. Seis semanas antes
de obter o Prêmio Nobel de Economia, Robert Shiller advertiu que
essa demanda poderia estar potencializando uma bolha, já que os preços das
propriedades crescem duas vezes mais rapidamente que a renda.
A dívida hipotecária
como porcentagem da renda disponível das famílias chegou ao recorde de 15 por
cento, quase o dobro do nível no começo do mandado de Dilma.
“É aí que está
acontecendo algo no mercado de crédito e, como o governo está muito preocupado
com o crescimento, eles não vão deter essa festa”, opina Tony Volpon, diretor
de pesquisa para mercados emergentes da Nomura Holdings Inc., em entrevista por
telefone de Nova York. “Haja ou não uma bolha, é um futuro problema. Eu não
vejo um incentivo político” para reduzir os empréstimos hipotecários.
As maiores cidades
Os créditos para propriedades no Brasil continuam sendo uma parte
relativamente pequena do PIB e do crédito total em comparação com outros
mercados emergentes, e o crescimento tem sido rápido devido a uma base pequena,
declarou aos jornalistas Túlio Maciel, diretor do departamento de pesquisa
econômica do Banco Central, em 29 de outubro em Brasília.
Os preços das
propriedades nas duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro,
aumentaram 188 por cento e 230 por cento respectivamente desde janeiro de 2008
– quase o dobro do ritmo de crescimento da renda, segundo o índice brasileiro
de preços imobiliários da FIPE Zap, publicado pela Fundação Instituto de
Pesquisas Econômicas.
Nos EUA praticamente
nunca aconteceu que os preços das propriedades dobrassem em cinco anos”,
declarou Shiller, professor na Universidade de Yale em New Haven, Connecticut,
que previu a crise imobiliária dos EUA e ajudou a criar o índice
S&P/Case-Shiller de preços de propriedades, durante um evento em Campos do
Jordão em 31 de agosto.
“Na verdade, não sei
se há uma bolha no Brasil, mas eu suspeito que sim e, talvez dizendo isso eu
possa contribuir para esfriar esse entusiasmo”.
Empréstimos
imobiliários
Os empréstimos
imobiliários quase triplicaram, passando de 2,3 por cento a 6,8 por cento do
PIB depois da crise financeira global. A Caixa Econômica Federal representa 70
por cento do total, segundo o FMI.
Em 30 de setembro, o
Conselho Monetário Nacional, constituído por funcionários do Banco Central e do
governo, elevou o valor máximo das propriedades que os trabalhadores podem
adquirir utilizando o fundo de garantia, FGTS, em 50 por cento para R$ 750 mil
para estados que representam 42 por cento da população do País. O limite para
outros estados aumentou 30 por cento para R$ 650 mil.
A crescente anulação
de contratos hipotecários é um sinal de que as companhias devem endurecer seus
padrões creditícios para os compradores de renda baixa e média, pensa Cristiane
Spercel, analista na Moody’s Investors Service.
“A atual tendência dos preços imobiliários é
claramente insustentável”, afirma Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco
Mizuho do Brasil SA, em entrevista por telefone. “As famílias já estão muito
endividadas e o ritmo de crescimento dos créditos, especialmente no mercado
imobiliário, é muito alto. Seria prudente diminuir o ritmo dos empréstimos ao
mercado imobiliário”.
São Paulo – Ele
antecipou os estouros da bolha acionária das
empresas de internet nos EUA em 2000 e da bolha imobiliária americana em
2007. É fascinado por bolhas e um dos economistas mais influentes do mundo. Foi
este homem que esteve recentemente
no Brasil e disse que havia uma bolha imobiliária no Rio de Janeiro. Em entrevista por
telefone à EXAME.com na última quinta-feira, o professor da Universidade de
Yale, Robert Shiller, repetiu a afirmação e expôs todo o seu ceticismo em
relação aos imóveis residenciais
como investimentos sólidos.
O simpático professor
de 67 anos foi um dos criadores dos célebres índices Case-Shiller, que auferem
o desempenho do mercado imobiliário americano.
Shiller também é um dos maiores expoentes das finanças comportamentais, que
estudam o comportamento do investidor. Em função disso, tem plena consciência
de que o mercado é formado por pessoas, que tomam decisões muitas vezes
irracionais ou inconscientes, movidas por paixões e motivos esdrúxulos.
Por isso mesmo, o
autor de livros renomados como “Exuberância Irracional” e “O Espírito Animal”
mantém uma postura humilde frente aos mercados
financeiros: não tem medo de dizer que não sabe para onde vão os preços do mercado
imobiliário, o qual considera extremamente especulativo e arriscado, acha que
os sonhos são importantes na hora de se tomar decisões financeiras, e acredita
que a diversificação seja a saída para o pequeno investidor não se enrolar, por
mais batida que seja essa recomendação.
Confira a seguir os
principais trechos da entrevista de Robert
Shiller à EXAME.com, em que o professor fala sobre o mercado imobiliário
brasileiro, os motivos certos para se comprar um imóvel, finanças
comportamentais e sobre seu último livro “Finanças para uma Boa Sociedade”:
EXAME.com – Devido a
motivações históricas, encarar imóveis como investimentos sólidos está em nosso
DNA. Ter uma casa, no Brasil, é quase uma obrigação. Contudo, recentemente o senhor disse que acreditava que imóveis residenciais,
como investimentos, são uma ilusão. Como então os brasileiros deveriam
encarar o mercado de imóveis residenciais?
Robert Shiller – É difícil fazer previsões a respeito de
mercados especulativos como o de imóveis residenciais. Atualmente, não só o
Brasil, mas também muitos outros países estão passando por um “boom” no mercado
imobiliário. Mas podemos esperar que essa alta continue? No Rio os preços dos
imóveis residenciais mais que dobraram, acima da inflação, nos últimos cinco
anos. Ora, em Vancouver, que é a cidade mais próxima de uma bolha no Canadá, os
preços também mais que dobraram nos últimos anos. O que está acontecendo em
Vancouver? O investimento em imóveis está no DNA brasileiro, mas também está no
DNA de outros lugares, como Canadá, Hong Kong e Índia. Eu tenho esse mau
presságio em relação a todas essas pessoas em diferentes países com essa ideia
de que imóveis residenciais são um ótimo investimento. Eu acho que está errado.
Podem ser por um tempo, mas depende de quando você vende. Eu não acho que seja
um investimento muito seguro no longo prazo.
EXAME.com – O senhor
acha que é um mercado mais especulativo, então?
Shiller – Bem, se você vê
os preços dobrarem no Rio em apenas cinco anos, isso parece certo? O que está
acontecendo? Pode haver uma razão para isso, o Brasil tem crescido bem, há uma
classe média crescente e a indústria de concessão de crédito está ficando mais
forte, mas eu não acho que isso justifica dobrar de preço tão rapidamente. O
que eu acho – e eu devo dizer que sou estrangeiro e que não estou aí no Brasil
– é que é uma bolha.
EXAME.com – O Rio vai
sediar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016, e a cidade está em
obras, por exemplo, de infraestrutura de transportes. Os níveis de violência
estão diminuindo. O senhor acha que mesmo com essas melhorias na cidade, a
elevação de preços foi rápida demais?
Shiller – Eu acho que
sim. É algo que eu enfatizo em meu livro “Exuberância Irracional”, que começou
falando de bolhas no mercado de ações e foi atualizado para incluir as bolhas imobiliárias. Uma coisa
que acontece durante as bolhas é que as pessoas se apegam a alguma estória
dramática como “as Olimpíadas estão chegando”, e aquela estória vai sendo
enfatizada desproporcionalmente durante a formação da bolha. As pessoas gostam
de ouvir esse tipo de estória, porque isso as encoraja. Antes dos Jogos
Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, nos anos 90, houve gente dizendo que
a cidade seria revitalizada e que os imóveis iam se valorizar. Bem, eles podem
ter valorizado um pouco, mas não houve um efeito duradouro e permanente.
EXAME.com – OK, então
como investimentos os imóveis não são tão eficientes. Mas comprar uma casa para
morar é fundamental na vida de uma pessoa? É uma base importante para uma família?
Shiller – Para algumas
pessoas, sim. A casa dá uma base estável, vizinhos estáveis e um senso de
comunidade. Eu acho bom, eu tenho uma casa. É razoável para muita gente. Por
outro lado, eu conheço famílias que vivem em apartamentos alugados e sim, talvez elas sejam espertas.
Porque o aluguel, na verdade, liberta você. Você perde
o senso de comunidade e de permanência, mas está livre do trabalho de manter
uma casa e ganha mobilidade. Isso significa poder aceitar um novo emprego em
outro lugar mais rapidamente, é só pegar suas coisas e ir. Além disso, se você
mora de aluguel, você pode investir seu dinheiro em outras aplicações e diversificar
muito melhor.
EXAME.com – Quais são
os motivos certos para se comprar uma casa?
Shiller – Há certos tipos de propriedade que só costumam estar disponíveis
para venda, que não são alugadas facilmente, como uma linda casa em um bosque,
por exemplo. Ou então se você sonha com uma linda casa com jardim em um
determinado lugar, que seus filhos e depois seus netos vão visitar. Pode ser
que você viva pelo resto da sua vida naquela casa, e eu acho que isso tem
grande apelo para as pessoas. O problema é que essa permanência pode não
funcionar, porque você pode perder seu emprego, ou ter uma oportunidade em
outro lugar, e aí você vai acabar tendo que vender a sua casa de qualquer
forma. Não entrar nessa pode lhe garantir mais sucesso. Mas o importante é não
comprar porque você acha que o imóvel vai se valorizar. Porque é isso que as
pessoas pensam, especialmente agora, e eu acho que isso é um erro. O mercado de
ações tem um histórico muito melhor de valorização e permite diversificação.EXAME.com – Muita
gente que vive no Rio e em São Paulo quer comprar uma casa para morar, e não
como um investimento. O que essas pessoas deveriam fazer? O senhor acha que
elas deveriam esperar um pouco para ver o que acontece com os preços, ou elas
devem comprar sem se preocupar caso o imóvel se desvalorize depois?
Shiller – Se você tem
visão de longo prazo, vai ficar naquela casa por muitos anos e realmente quer
comprar, eu consigo imaginar comprar agora. Porque nós realmente não sabemos
para onde vão os preços – eles podem subir mais e depois apenas voltar para o
patamar atual. Eu não quero aconselhar as pessoas a fazerem algo diferente
daquilo que elas sentem que devem, porque se você quer um tipo específico de
residência, então talvez deva comprá-la. Você só vive uma vez, e se você sonha
com uma linda casa com bons vizinhos e uma comunidade, isso é um sonho valioso.
E eu acho que nós jamais saberemos com alguma certeza para onde vão os preços
dos imóveis residenciais. Eu acho que é preciso pensar, antes de tudo, sobre
que tipo de vida você quer e como a sua família vai ficar bem. É verdade que eu
acho que alguém que compre um imóvel no Rio agora pode perder dinheiro se os
preços dos imóveis sofrerem uma correção para baixo. Mas eu não sei. Esse é o
ponto. É arriscado, é desconhecido. As pessoas devem pensar que é um
investimento arriscado, mas não ter medo demais, se é isso que elas realmente
querem.
EXAME.com – O senhor
acha que há problemas no mercado imobiliário residencial de São Paulo também?
Ou só o Rio preocupa?
Shiller – São Paulo não teve uma alta tão forte quanto o Rio, mas está perto. As duas
cidades são parecidas no sentido de que são cidades famosas. E cidades famosas
tendem a ter mais bolhas, porque as pessoas acham que elas podem valer muito.
Há uma boa chance de que São Paulo e Rio continuem se valorizando por mais
alguns anos e que depois os preços desabem, mas em seguida voltem a se
recuperar. Como numa montanha-russa. Mas eventualmente você terá que vender a
sua casa, e você não sabe como vão estar os
preços quando isso ocorrer.
EXAME.com – Qual é o
comportamento normal dos preços no mercado imobiliário residencial? É subir e
descer como uma montanha-russa? Como seria uma alta de preços “normal” no
mercado imobiliário?
Shiller – Ninguém sabe
realmente. Na maior parte dos países, ninguém coletou dados sobre o
comportamento do mercado imobiliário. Quando eu criei meus índices de preços de
imóveis Case-Shiller, nos Estados Unidos, virtualmente não havia índices de
preços. No Brasil, não havia nada até o lançamento do Índice FipeZap, não é incrível? Eu acho que a cultura
está mudando, nós estamos ficando mais especulativos em relação a imóveis
residenciais. Esse mercado geralmente não se movia como uma montanha-russa.
Isso é tão novo que não dá para saber o que é padrão e usual.
Shiller – Parece que as bolhas eram mais regionais. Nos
Estados Unidos havia bolhas imobiliárias, mas costumavam envolver lotes,
terrenos vazios. Esse fenômeno remonta aos anos de 1700, mas eram isolados, não
eram grandes eventos. Todas essas bolhas estouraram, eventualmente. Mas agora
elas estão mais difusas e frequentes, e não envolvem mais apenas terrenos, mas
sim casas já construídas. Os níveis de entusiasmo e excitação subiram muito. As
bolhas estão estourando com mais frequência. Eu acho que isso tem muito a ver
com o fato de que nós não temos mais esperanças no socialismo. Nós pensamos
que, estando em um mercado livre, devemos cuidar de nós mesmos, pois ninguém
vai se certificar de que tenhamos um lugar para morar. Há um medo subjacente
que guia as pessoas agora.
EXAME.com – Pensando agora um pouco nas finanças
comportamentais, qual é, na sua opinião, a atitude mais inteligente que o
pequeno investidor pode ter em relação ao mercado e aos seus investimentos? Se
os mercados são irracionais e se nós aparentemente não conseguimos aprender nada
com as crises, as bolhas, ou mesmo nossos próprios erros, quais
são as chances de o pequeno investidor não deixar suas emoções atrapalharem?
Shiller – Pode soar meio chato, mas diversificação é o segredo.
Não pôr todos os ovos na mesma cesta. Há ações, títulos de dívida, commodities,
fazendas, imóveis – mas imóveis são apenas um item na lista. Infelizmente, o
investimento em imóveis é diferente dos outros, pois acaba prendendo você. É
melhor que você sinta feliz naquela casa, e não sentir que criou uma prisão
para si mesmo. O imóvel força você a colocar quase todo o seu dinheiro ali, o
que o deixa exposto a muito risco. Você pode sentir que não quer morar de
aluguel, mas pense a respeito, porque o aluguel vai proteger você e poupá-lo de
um monte de transtornos que vão consumir seu tempo.
EXAME.com – Eu gostaria de falar um pouco sobre o
seu último livro, “Finanças para uma Boa Sociedade”. Quais são os limites do
Capitalismo Financeiro e quem os estabelece? Onde a contribuição dele para a
sociedade termina, e a ganância, a irracionalidade e o objetivo de ganhar
dinheiro começam?
Shiller – O Capitalismo Financeiro agora varre o mundo,
porque se descobriu que ele traz prosperidade a muita gente. O problema é que
ele não parece dividir essa prosperidade igualmente, e nós temos visto uma
elevação na desigualdade em muitos lugares ao redor do mundo. Quem trabalha com
finanças costuma ter sucesso e ganhar muito dinheiro. Mas nós também precisamos
de cientistas, médicos e professores, profissões críticas para uma sociedade
bem-sucedida. Talvez os financistas venham recebendo recompensas altas demais,
e pode haver uma certa bolha nos empregos nessa área, que pode sofrer uma
correção. Se não, eu acho que os governos deveriam fazer algo para manter um
certo nível de igualdade econômica. Nós não podemos deixar isso chegar longe
demais. Deveria haver um plano para lidar com desigualdades crescentes.
EXAME.com – Mas como o governo poderia fazer algo
para manter essa igualdade econômica? Quem serão as pessoas que vão fazer parte
desses governos? Elas não podem estar relacionadas à indústria financeira,
certo?
Shiller – Há uma série de questões a se
trabalhar. Uma delas é o poder político da indústria financeira. As pessoas
precisam reconhecer que o país pertence ao povo, e não a uma minoria. E nós
temos que evitar que algumas pessoas desenvolvam um sentimento de posse sobre o
país. Anos atrás eu escrevi que cada país deve ter um plano do que fazer caso a
desigualdade piore. Esse plano deveria consistir em efetivamente aumentar os
impostos para os mais ricos no futuro. Nós deveríamos costurar esse plano
agora, e não esperar que a desigualdade piore, senão será muito mais difícil de
corrigir. Eu me preocupo que nos próximos dez, 20, 30 anos o mundo esteja muito
mais desigual. E a principal esperança será que os governos do mundo, juntos,
elevem os impostos dos mais ricos. Não é para impedi-los de serem ricos, e sim
para pôr limites, para não ficar muito maluco.
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